"EU SÓ PEÇO A DEUS"
León GIeco, Raul Ellwanger e Mercedes Sosa, em 1985
Por Raul Ellwanger (do
livro Nas Velas do Violão)
O compositor argentino León Gieco fez e gravou esta canção
quando os ditadores Videla e Pinochet, ao final de 1978, quase arrastaram seus
países a uma guerra criminosa, burra e tragicômica, não fosse pelo sofrimento
de ambos os povos. A canção ficou ali, dormindo como semente, pois o próprio
León pagou uma espécie breve de exílio (incluindo passagem por Porto Alegre).
No retorno triunfal de Mercedes Sosa à Argentina após a redemocratrização, o
tema foi gravado por ela ao vivo com León nos famosos Concertos do Cine Opera,
e assim empalmou com a ressaca da guerra das Malvinas e a alegria do fim da
ditadura: sucesso estrondoso. Foi sendo
espalhada pelo mundo, hoje tem versões em mais de 50 idiomas.
Nas cinco estrofes, León vai enunciando as grandes ideias
dos Direitos Humanos uma a uma, ao reiterar que não quer ficar indiferente à
dor, à mentira, ao exílio, à impunidade, à guerra. No disco vinil Gaudério gravei minha versão
em português, com arranjo de Jota Moraes e voz de Bebeto Alves. Segundo León, a letra vertida está mais
explícita e compreensível que a original, pois tem que recorrer a menos
metáforas anticensura, em especial nos versos da “injustiça”. Eu só peço a Deus
foi gravada em português por Beth Carvalho e Mercedes Sosa e uma dezena de
outros intérpretes, sendo entoada com frequência em eventos de Direitos Civis.
Em maio de 2010, num concerto de 12 horas com xous de Pablo
Milanes, Gilberto Gil, Toto Mamposina, Victor Heredia, Jaime Ross, Los Jaivas,
convidado por León cantei com ele Solo le pido a Diós ao lado de Raul
Porchetto, Luis Gurevich e Gustavo Santaolalla, na esquina de 9 de Julho com
Corrientes, o coração de Buenos Aires, ante 2 milhões de pessoas, na
comemoração do Bicentenário da Independência argentina. Deixamos o cenário às 5
horas da manhã, saímos com León e sua banda caminhando Corrientes acima,
relaxando, exaustos e felizes entre aqueles papéis vadios que rolam nas
calçadas de madrugada. Eles subiram no seu ônibus e iniciaram uma viagem de
mais de mil quilômetros ao noroeste do país, pois naquela mesma noite tinham
que apresentar-se num pequeno festival da província. Vida de músico. Já em
dezembro de 2013, no encerramento do Fórum Mundial dos Direitos Humanos, em
Brasília, tive a honra da cantar esta canção a capella ante delegações de todos
os continentes, sob o olhar doce e generoso da abuela Estela de Carlotto.
Prevenindo-se ante as ameaças reiteradas pessoalmente pelo
general Harguindegui (ou seria Etchecolatz?), diretor da Polícia Federal
argentina, no dia 11 de outubro de 1977 León aportou de manhãzinha em Porto Alegre , com sua
inseparável Alicia Sherman e a pequenina Lisa. No endereço indicado do Bairro
Montserrat, ninguém os esperava. Ali ficaram pelas escadarias externas do
prédio até meia noite, quando cheguei em casa em minha nova condição de papai,
após passar o dia na maternidade. Realmente, apesar dos esforços de Nana,
Santiago demorou muito a nascer.
Eu só peço a Deus
León Gieco – Versão Raul Ellwanger
Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja
indiferente
Que a morte não me
encontre um dia
Solitário sem ter
feito o que eu devia
Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me
seja indiferente
Pois não posso dar a
outra face
Se já fui machucado
brutalmente
Eu só peço a Deus
Que a mentira não me
seja indiferente
Se um só traidor tem
mais poder que um povo
Que esse povo não
esqueça facilmente
Eu só peço a Deus
Que o futuro não me
seja indiferente
Sem ter que fugir
desenganado
Pra viver uma cultura
diferente
Eu só peço a Deus
Que a guerra não me
seja indiferente
É um monstro grande e
pisa forte
Toda a pobre inocência
dessa gente.
Ouça no You Tube:

Nenhum comentário:
Postar um comentário